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poesia da viagem urbana

 poesia da viagem urbana lá estava eu, sentado no coletivo, indo de um ponto ao outro da cidade o coletivo chacoalhava com ruídos grotescos da maquinaria velha e vencida. toda desconjuntada, a máquina de transporte estalava com grosseria. parecia que havia um acordo entre os buracos no asfalto e as peças frouxas do trambolho em movimento sentado num banco do veículo, como uma fruta no liquidificador, ou como gado transportado num caminhão, eu balançava e trepidava a cada chacoalhada do veículo que avançava. vivendo também essa experiência, velhinhos felizes por causa do passe-livre. no rádio do ônibus uma música que me remetia aos anos oitenta e lá mesmo, naquele possante esboforido, pensei: vou escrever uma poesia assim nasceram esses versos, comprovando que é possível nascer arte de uma prosaica viagem urbana

diante de mim

 diante de mim diante de mim um caminho que nunca trilhei diante de mim o desconhecido, e a consciência de que devo confiar sei que me aguardam lutas e embates sei que me aguardam alegrias e tristezas sei que me aguardam as experiências que aguardam todos os homens diante de mim as vivências dos anos vividos diante de mim a surpresa, o lance imprevisto, como diz o louvor mas não há outro caminho não há alternativa e isso para todos nós é seguir avante, esquecendo o passado é seguir em frente sem olhar para os lados é focar no objetivo e perseverar sem vacilo, sem titubeio diante de mim a esperança do porvir diante de mim a destra do meu Criador e o prêmio destinado aos que vencerem diante de mim um fio escarlate que me conduz e a promessa do meu galardão

a rotina e a poesia

a rotina e a poesia eis à minha frente a rotina e a poesia quero fazer poesia, subindo ao alto, mas eis que a rotina me prende ao chão como cantar a beleza da beleza da vida se me angustio com as coisas concretas? o espírito clama e se alegra com o que é do alto mas o corpo chama a atenção para o sustento da carne e assim fico dividido vida cindida mente cindida e a cisão é tão forte que não consigo escrever a luta da carne contra o espírito é tão renhida que me torno ambíguo um sopro divino, porém, no meu ouvido, e consigo escrever mesmo sem ver beleza na escrita mas lá está ela cá ela está levando consigo a angústia do coração levando consigo a aflição da alma e me pondo em condições para o seguinte embate e novamente à minha frente a rotina e a poesia

o que sou

 o que sou eu sou a minha palavra sou a palavra na minha boca sou o fazer na minha mão sou o caminho no meu pé mas sobretudo sou a palavra que pronuncio sou o verbo na minha mente sou meu ponto e minha vírgula em um mundo de reticências sou a sílaba, a palavra, a oração sou feito de português e tenho nuances de outras línguas sou minha neurociência sou minha neurolinguagem neurolinguisticamente formado pela união de duas outras palavras: Maria e José sou a palavra escrita sou a palavra falada sou a palavra pensada mas não dita, não pronunciada ainda eu sou o texto que eu li sou o texto que escrevi eu sou este poema aqui você me encontra, caro leitor aqui você me estuda e me conhece eu sou a minha palavra

a construção de uma poesia

 a construção de uma poesia  a construção de uma poesia a construção de um texto a construção de uma prosa um texto que não seja nem prosa nem poesia uma poesia enviesada uma poesia bruta uma poesia não lapidada apenas um texto apenas um registro eu me revelo e me escondo no texto que eu construo uma prosa diferente uma prosa maneirista uma prosa-poema experimental um texto com arestas o verso livre, sem compromisso com a musicalidade apenas um obelisco uma torre construída com letras e espaços a formalidade de um blog o método de publicação a interrogação nos olhos do leitor a crítica na mente do leitor algo como: "forçando a barra pra escrever" e meio que é isso mesmo que eu saiba não é crime talvez ninguém leia esse texto mas ele estará lá, de prontidão, alerta e vigilante na construção de uma poesia

as marcas da vida

 as marcas da vida as marcas da vida os sinais do que passou a lembrança das coisas fatos do passado ainda vivos na memória marcas e cicatrizes marcos e vivências os símbolos que nos falam no passado escrito na pele do corpo corpo que veio do barro corpo que voltará ao barro e as marcas, os sinais? para onde vão? marcas dolorosas perdidas no esquecimento novo céu e nova terra os símbolos da salvação marcas indeléveis marcas substanciais o tempo cronológico sendo substituído pelo tempo eternal enquanto o passado é substituído pelo futuro no momento do agora e as marcas são a própria vida semiótica da vivência as marcas da vida conduzindo-nos à eternidade do tempo

um tempo especial

 um tempo especial é tempo de poesia é tempo de escrever escrever poesia escrever prosa porque é um tempo poético porque é um tempo profético tempo de raros dias tempo de definição tempo do tempo tempo metafísico tempo metafórico instantes do bem instantes do mal e eis a peleja do tempo de hoje horas aceleradas minutos incertos segundos de improviso um tempo especial para um povo especial no calendário da profecia o fechamento, extraordinário, de uma dispensação mister estar atento atento, de prontidão de acordo com o tempo kairós desperta, amigo o sono já se foi e é necessário estar desperto